Imagens que valem mil palavras




Fonte:Notícias Magazine - Jornal de Notícias

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Já sabíamos que ela canta e que representa. Mas não sabíamos que também fotografa. E bem. Lúcia Moniz acaba de editar um livro, que nasce desta paixão antiga pela imagem.
Esta vontade de fotografar não chegou de um dia para o outro. Começou devagarinho, antes mesmo de o pai lhe oferecer uma máquina aos 14 anos, cansado de ver a filha levar-lhe a sua. Seguiram-se os primeiros disparos mais a sério, uns desfocados, outros sem luz, revelando muitos rolos em que só se aproveitava uma fotografia. E então Lúcia Moniz foi percebendo sozinha como funciona o diafragma, as velocidades, os arrastamentos, a profundidade de campo, e o mundo abriu-se diante dos seus olhos com uma qualidade mais próxima dos sonhos que do real. Vou Tentar Falar Sem Dizer Nada é o livro que resulta desta paixão de Lúcia pela imagem. Foi lançado no mês passado na ilha Terceira, terra natal dos pais que teve direito ao capítulo central.
«Sou muito assídua no Instagram. Lembro-me de, no início, ainda ter pensado as imagens deviam ser publicas ou privadas, mas a minha intenção era mesmo fotografar o que me apetece, sem pretensão nenhuma, e que as pessoas vissem as minhas fotos. Até porque não são um relato da minha vida.». A cantora está agora, aos 37 anos, muito mais segura dos disparos que faz com a câmara. «Nem sequer tenho o hábito de andar com a máquina atrás. Depende muito do que estou a fazer no momento, se tenho tempo livre durante as gravações ou vou poder pousar o material de vez em quando.»
Sabendo deste gosto pessoal e do jeito de Lúcia Moniz, a editora Marcador desafiou-a a publicar um registo biográfico em imagens, sem legendas, para não influenciar a interpretação de cada um, em que percorre as ruas de Lisboa, do Porto, Toronto, Tóquio, do Carvalhal, a música, a velhice, a Terceira dos pais que também lhe corre nas veias. «Gosto muito de fotografar pessoas e expressões, pormenores que me chamam a atenção por algum motivo.» Como a senhora de bicicleta que viu em Toronto quando lá esteve em setembro, a sondar o mercado de trabalho como atriz. Ou as paisagens do Carvalhal, Alentejo, captadas no início das gravações da série Bem-Vindos a Beirais , este verão. Ou os ritmos de Tóquio, em maio de 2012, de visita à irmã Sara e às sobrinhas Yuu Alda e My Ana - as crianças da sua vida, juntamente com a filha Júlia.
«No livro estão reunidos momentos dos últimos dois ou três anos e continua a não haver pretensão nenhuma, embora vá para uma livraria enfiar-se no meio dos outros livros todos», ri-se a autora. Também não há ali nenhuma ordem cronológica: está sobretudo organizado por capítulos, sendo a Terceira aquele que reúne mais imagens sobre o mesmo tema pelo valor afetivo. «As minhas raízes estão lá. Temos casa na Praia da Vitória, terra da minha mãe. Todos os anos as minhas férias de verão são passadas naquela ilha.»
Lúcia escolheu estas cidades e estas pessoas por lhe dizerem tanto, mas terá mais pessoas e mais cidades para um próximo livro. «Quando não tenho a minha Canon 250 comigo uso o iPhone. Foi com ele que tirei as fotos Tóquio e de Toronto - não levei a câmara e arrependi-me amargamente assim que cheguei ao Canadá. A qualidade de imagem já é muito boa.». Na verdade, ela nem tem mala própria tem para a câmara, porque a emprestou ao irmão João e nunca mais a viu. E foi também Lúcia Moniz quem fez o tratamento de imagem e a paginação do livro, valendo-se do curso de Design que não chegou a terminar na Universidade Lusófona. «O terceiro ano coincidiu com a altura em que comecei a ter várias oportunidades como atriz e cantora, achei que não seria capaz de conciliar.» Nada que a tenha impedido de assinar a montagem e edição de arte do livro de culinária experimental 2780 Taberna , editado pela Bertrand, que lhe valeu em 2011 o Best Cookbook Design, prémio de melhor design a nível mundial atribuído pelo Gourmand World Cookbook Awards. «Estava a acompanhar o desenvolvimento do livro com um grupo de amigos. Ia dando ideias, mostrava-lhes como podiam concretizá-las na prática, e acabei por fazer cento e tal páginas. Resultou muito bem, por acaso.»
Lúcia tem uma boa disposição contagiante. É, de resto, a esse sentimento positivo inato que vai buscar a garra para construir personagens marcantes como a de Laura, na novela Vingança , a de Susana Fontes na série Bem-Vindos a Beirais , a de Carol na série canadiana Living in Your Car , ou a de Anita no musical West Side Story encenado por Filipe La Féria, pela qual recebeu o Globo de Ouro na categoria de Melhor Peça/Espetáculo em 2009. «A música tem sido a sacrificada agora. Está de molho, como se costuma dizer, porque ando mais focada nos textos, na série, nos trabalhos de casa da minha filha, na fotografia.»
Aqui parece sobrar-lhe a inspiração que lhe tem faltado na música. A começar pela imagem de capa, um autorretrato muito particular: «Houve um dia em que acordei com o cabelo todo no ar, vi-me ao espelho e pensei que dava uma foto gira.» Pegou no telemóvel, tapou os olhos que «estavam um susto» e fotografou-se sem filtros nem receio de se rir de si mesma, como faz com tudo. «Eu não sou fotógrafa, não tenho intenção de seguir uma carreira de fotógrafa. Aceitei fazer este livro porque foi uma oportunidade de me partilhar e espero que, se houver outro, seja ainda melhor do que este nesse sentido.» As imagens valem mais que mil palavras para falarem também acerca da pessoa que as capta. Lúcia prefere assim.
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