Auto do desejo-teatro-Ípsilon

Na defesa do seu texto, Tennessee Williams sugeria que não procurássemos culpados nem nos quedássemos em julgamentos sumários. Em "Um Eléctrico Chamado Desejo" não existiam bons e maus. Estaríamos perante um evidente e inevitável confronto de mundos, um progressista, construtor de uma multiculturalidade representada por Stanley Kowalski, polaco de ascendência mas "cem por cento americano", e um outro colocado à margem, decadente e elitista, hoje feito mais de fantasias do que poder, representado por Blanche DuBois, crente não na verdade mas "no que a verdade deveria ser".

As duas personagens, antagonistas, deveriam reunir os diferentes lados do debate entre evolução e conformismo e, no confronto, libertar a narrativa de um pendor moralizante.

A força maior do texto de Williams reside, precisamente, na possibilidade de avaliarmos os comportamentos não à luz das suas consequências, mas atentos às razões que levam as personagens - e por identificação os homens no geral - a agir de determinada forma.

"Um Eléctrico..." não é tanto uma peça sobre o corpo quanto é uma peça sobre a corporalidade, mostrando que a tensão não é física mas psicológica. É, por isso, curial que a dramaturgia seja atenta à evolução das personagens, descrevendo-as claramente desde o início e, no desfiar dos seus argumentos, consiga fazer com que sejam os actores a controlar, conforme a contra-cena, o modo como revelam as diferentes camadas que constituem o perfil psicológico das personagens.

Diogo Infante consegue esse jogo a espaços, preferindo uma distância expositiva a um olhar determinista e, curiosamente, parecendo optar pela ilusão de Blanche em detrimento do pragmatismo de Kowalski. É um olhar curioso, que faz com que a sua encenação reflicta o desequilíbrio do debate e que, pelo modo como conduz a peça sem intenções expressionistas, impeça o julgamento sumário temido por Williams.

É certo que, por vezes, essa intenção é contrariada, forçando uma polidez no seu olhar que expõe uma tradução (Helena Briga Nogueira) demasiado preocupada com a cadência poética de Williams e que, por vezes, descura a desmontagem que o autor imprimiu nas frases (o mesmo vale para os figurinos de Manuela Gonzaga).

A versão, se segue o texto original (e portanto não foge às elipses, como no argumento do filme de Elia Kazan), é demasiadamente altiva e educada, sendo irónica quando devia ser crua, e fria quando devia ser cínica. Mas, ainda assim, e mesmo que possamos ver nesta opção uma defesa da magia reclamada por Blanche contra o realismo de Kowalski, há uma vontade de criação de um território neutro, aqui personificado por um cenário de peça única (Catarina Amaro) que é entendido como uma personagem, revelando ou escondendo algumas cenas, no qual o magnífico desenho de luz (Nuno Meira) e a sonoplastia (Rui Dâmaso) - que ganharia em ser ainda mais interior e subterrânea - jogam um papel de extrema importância.

A encenação procura, assim, e bem, dar aos actores o papel de veículos das ideias de Williams. O desempenho de Alexandra Lencastre (Blanche) é rico de cambiantes no olhar, na voz e na gestualidade (mesmo que, por vezes, se insista na sedução, quando o texto é aguerrido e combativo), e o de Lúcia Moniz (Stella) é de uma impressionante solidez, sabendo manobrar, no tempo do gesto e no tempo do diálogo, o amadurecimento a frio da irmã de Blanche. Ambas, conscientes de que o seu tempo de belas de um decadente Sul já acabou, fazem pela peça o que, por vezes, o resto do que se passa em palco não faz por elas. Preenchem o palco com uma inteligência instintiva, ao invés de intuitiva, ganham o combate da argumentação pelo espaço que dão entre as frases e pelo modo como se envolvem, por inteiro (e não apenas com a cabeça como faz Albano Jerónimo com Kowalski), na defesa de um ideal.

É uma versão que entende por que é que Williams sugeria que o único sentimento que se podia ter sobre Blanche era o de piedade. Diogo Infante faz com "Um Eléctrico..." um exercício sobre a passagem do tempo, sendo lírico e fantasioso, em vez de ser inquisitivo. A distância temporal que nos separa do texto não aguentaria outro olhar.

Fonte:Ípsilion
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